À deriva

20/09/2011 § Deixe um comentário

Sol de outono

     À deriva é a luz no caminho, até então frio e escuro, do diretor e roteirista Heitor Dhalia. O cineasta tinha em sua filmografia duas obras marcadas pela ironia, pelo sarcasmo agudo, fotografia obscura e enredos sempre enfatizando o lado podre do ser humano. Para quem não se lembra, seu primeiro longa de 2004 foi Nina, uma versão paulista contemporânea de Crime e castigo de Dostoiévski e o segundo foi O cheiro do ralo, baseado no romance homônimo do quadrinista Lourenço Mutarelli, que dispensa maiores explicações, já que o próprio título é bastante sugestivo. O seu terceiro e mais recente longa, porém é solar.

     Todo passado na praia durante as férias de verão de uma família paulista na década de 80, o filme é permeado pela sutileza. Dos rostinhos bronzeados das crianças às atuações, o roteiro, a fotografia suave, tudo está em perfeita harmonia com o que parece ser mesmo uma opção pela leveza. O figurino de Alexandre Herchcovitch é a síntese mais explícita desse conceito: modelitos com muita regatinha branca e shorts curto com estampa praiana, que fazem o espectador lembrar da moda daquela época. E como À deriva tem um tom nostálgico! É quase possível sentir o cheiro de maresia com protetor solar das férias de verão da adolescência… E da mesma forma que as cenas da meninada andando de bicicleta, nadando e jogando verdade ou conseqüência trazem boas recordações, também nos remetem a uma fase difícil como a que passa a protagonista, uma menina de 13 anos lidando com as primeiras descobertas e desilusões.

     É nesse ponto que o diretor mostra que se trata de um filme sutil, porém não menos forte em dramaticidade e de forma alguma superficial. Filipa (a novata e promissora Laura Neiva) sofre a dor do amadurecimento ao descobrir que seu pai (Vicent Cassel charmosíssimo como um escritor) está traindo a sua mãe (Débora Bloch no tom certo) e que a estrutura da família está por um fio. Uma dor profunda e dura, que não se permite o choro, bem típica da fase de despedida da infância para o universo adulto. E Dhalia soube extraí-la da protagonista com uma expressividade incrível. A trilha incidental de Antônio Pinto pontua com exatidão as cenas. No mesmo compasso conceitual do filme como um todo, há suavidade combinada com carga dramática, se assemelhando bastante, inclusive, com outra trilha ilustre do mesmo autor, a do filme Central do Brasil.

     À deriva é solar, embora o sol não seja quente como o de verão. É um sol de outono, gostoso de manhã dono de um céu azul sem igual, mas frio ao cair da tarde.

Ficha Técnica

Diretor: Heitor Dhalia

Elenco: Camilla Belle, Vincent Cassel, Cauã Reymond, Laura Leto, Débora Bloch, Gregório Duvivier…

Gênero: Drama

Produção: Brasil

Duração: 97 min

Publicado originalmente em 01 de setembro de 2009.

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