Simonal – Ninguém sabe o duro que dei

20/06/2011 § Deixe um comentário

Quando a pilantragem ganha duplo sentido

     Simonal – Ninguém sabe o duro que dei é antes de qualquer discussão moral e ética que coloque em xeque a índole do cantor, um documentário de extrema importância para a cultura brasileira, pois recupera a memória esvaziada de um artista genial. Wilson Simonal foi apagado da história da música brasileira e permaneceu desconhecido por muitas gerações futuras a sua até o lançamento desse filme, que mostra ao espectador não só quem ele foi, mas também investiga o caso deflagrador da série de suspeitas levantadas contra a sua pessoa, que culminou no seu afastamento forçoso da cena musical da época.

     O doc vai além da mera discussão do veredicto imposto pela mídia e por muitos de seus companheiros de classe. Ele levanta questões relativas ao poder que a mídia tem de construir uma celebridade e no momento seguinte destruí-la. Assim como o cantor ganhou fama se apresentando em festivais e programas exibidos na TV, também foi massacrado pelos veículos de comunicação quando surgiu o boato de que ele era informante do DOPS, depois de uma confusão com seu contador. Simonal foi o cara certo na hora errada. Negro, famoso, idolatrado, levava para a época uma “vida de branco”, com muitos carrões e mulheres, ou seja, desafiava os padrões sociais estabelecidos em tempos ainda não tão liberais. E durante uma ditadura militar quem não se posiciona contra é automaticamente taxado como a favor. O maior crime é a delação e ninguém quer pagar para ver. Já dizia o lema do Estado autoritário: todos são culpados até que se prove o contrário.

     Seja culpado ou inocente, essa discussão não poderia ficar de fora de sua cinebiografia, pois é o estopim da decadência de sua carreira artística. Mas o foco real do documentário é apresentar ao público jovem esse artista que já na década de 60 lotava shows, enlouquecia fãs e levava muitos outros famosos para a sua platéia. E para isso alterna imagens de arquivo com depoimentos. Considerando que na época não haviam tantos meios de se registrar um acontecimento em vídeo como se tem hoje, a solução foi usar fotos e áudios de programas apoiados em grafismos, que resolveram com eficiência o problema, não deixando transparecer a escassez de imagens. O mundo estava aos pés de Wilson Simonal, que conquistava todos com seu suingue, charme e improviso. Era a primeira vez que tínhamos no Brasil um cantor de porte do show bizz, que alcançava enorme sucesso em território nacional e internacional. Acima de tudo ele queria se divertir e divertir os outros. Nenhuma surpresa para quem se intitulou o criador da pilantragem way of life.

Ficha Técnica

Diretor: Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal

Gênero: Documentário

Produção: Brasil

Duração: 98 min

Publicado originalmente em 01 de junho de 2009.

Anúncios

Marcado:, , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Simonal – Ninguém sabe o duro que dei no Cinédoque.

Meta