Sinédoque, Nova York

19/06/2011 § 1 comentário


Sinédoque, Charlie Kaufman

     Essa resenha não é como as outras. Ela tem por dever ser diferente, pois o seu objeto de análise se destaca dos demais justamente pelo seu olhar diferenciado. Esqueça as fórmulas, os clichês e os temas comuns a 99% das tramas cinematográficas, pois aqui falamos da mais pura originalidade. Trata-se do roteirista e neste caso, também diretor Charlie Kaufman, mais conhecido como autor dos filmes Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho eterno de uma mente sem lembranças.

     Sinédoque, Nova York é a primeira investida do roteirista na direção e por isso, traz acentuada a assinatura que já havia o elevado à categoria de autor em um meio onde só há espaço para diretores-autores, atores-autores e em alguns casos, produtores-autores. Se seus filmes anteriores causaram estranhamento de uns e admiração de outros pela forma de contar histórias de maneira no mínimo peculiar, este é ainda mais metafórico, não-linear e mental. Acompanhamos o diretor de teatro Caden Cotard (em atuação magnífica de Philip Seymour Hoffman), que recebe um patrocínio para montar uma peça grandiosa e original com o dever de se traduzir em conhecimento verdadeiro para sociedade. Kaufman nos leva a uma viagem por dentro da cabeça de Caden. Vemos o mundo da perspectiva do protagonista, sua tristeza, solidão, as pessoas que entram e saem da sua vida, como elas o afetam e vice-versa, o seu medo de morrer e o seu medo de viver.

     Assim como Charlie, protagonista de Adaptação (2002), Caden precisa produzir, mas não sabe o caminho. A diferença entre os dois é que o primeiro é um roteirista autoral às voltas com a dificuldade de pela primeira vez ter que adaptar um livro para a telona e o segundo é um diretor acostumado a adaptar peças de terceiros, tendo que criar a sua própria. Em ambos os filmes o espectador acompanha o doloroso processo criativo de seus personagens principais, que não se julgam capazes de exercer uma função diferente da sua natural, o que os deixa angustiados perante a situação em que são postos. Na busca pela verdade em sua obra, Caden, da mesma forma que Charlie, acaba por se fundir totalmente com seu objeto de criação. A única maneira encontrada de fazer algo real é reproduzir no palco os fatos vividos por ele desde que foi para Nova York nessa missão, com a maior semelhança possível. Assim, uma produção megalômana reconstrói a cidade e as várias situações vividas por Caden, com milhares de atores atuando simultaneamente em um processo insano e inacabável.

     Daí a explicação do título do filme. Sinédoque é uma figura de linguagem que substitui uma parte pelo todo, como fez o protagonista ao replicar de forma limitada a sua vida na big apple. Do mesmo jeito faz Kaufman, que utiliza sua vida pessoal como matéria-prima para seus filmes. No caso de Adaptação ele recebeu a encomenda de um estúdio para fazer um roteiro sobre orquídeas e o tema do filme acabou sendo sobre um roteirista que precisa escrever um roteiro sobre orquídeas. Aqui ele dirige pela primeira vez e o longa trata de um diretor hipocondríaco, que sofre com mil crises existenciais sem saber como criar algo significativo para o público.

     O diferencial de Charlie Kaufman é justamente saber construir histórias cruelmente realistas, pois parte da esfera extremamente particular para universal e assim, atinge secretamente cada espectador. Nas mãos de outro roteirista/diretor, Sinédoque terminaria ou na noite da estréia seguida do sucesso absoluto do espetáculo ou com Caden encontrando Adele (Catherine Keener) e a filha em uma Ferrari vermelha e os três fugindo juntos para o Caribe gozar o dinheiro desviado da obra superfaturada.

Ficha Técnica

Diretor: Charlie Kaufman

Elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Michelle Williams, Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh, Emily Watson, Dianne Wiest…

Gênero: Drama

Produção: EUA

Duração: 124 min

Publicado originalmente em 01 de maio de 2009.

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§ Uma Resposta para Sinédoque, Nova York

  • Renan Mattos disse:

    Achei que vc com muita clareza, fez uma bela e contundente critica, sobre uma obra impactante e profundamente artistica!!!

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