O cheiro do ralo

16/05/2011 § 1 comentário

O lixo é o troco

     O primeiro romance do quadrinista Lourenço Mutarelli, que originou o filme homônimo em questão, é um soco no estômago. Indigesto como o sanduíche que o protagonista comia diariamente em uma lanchonete de quinta, desencadeando o processo que culminaria no insuportável cheiro exalado por seu ralo, o livro constitui uma narrativa, como diz Valêncio Xavier no prefácio, neorrealista citadina. O diretor Heitor Dhalia acertou ao optar por uma versão um pouco mais branda (porém não menos fiel ao livro), pois solidão, poder e perversão já são por si só temas pesados. O filme abriu mais espaço para o humor irônico e sarcástico, o que o tornou um pouco mais palatável.

     Isso se deve em parte à escolha do ator Selton Mello para protagonista. Com seu bom timing para comédia, ele soube dosar com perfeição a carga cômica inserida na trama trágica. Sua interpretação é visceral e madura, confirmando mais uma vez ser um dos grandes nomes da nova geração do cinema brasileiro. As atuações são todas excelentes e provenientes, com a exceção de Selton, de atores cujos rostos ainda não são conhecidos do grande público. Paula Braun, que interpreta a garçonete cuja bunda vira objeto de desejo de Lourenço (Selton Mello), integra esse time de talentos (não mais) escondidos, assim como Silvia Lourenço e até o autor do livro, que interpreta o segurança do escritório.

     A fotografia e a direção de arte reforçam o sentido da obra com precisão ao imprimirem uma atmosfera marrom às cenas em referência à cor das excreções humanas. Os elementos cênicos e o figuro reproduzem um visual anos 70 dentro de um contexto atual, compondo uma estética kitsch. Da mesma maneira, a trilha sonora recicla sons setentistas costurados com ritmos novos. Por características assim, O cheiro do ralo é filho da nova geração cinematográfica nacional, indicando outro caminho que não é nem o sertão, nem a favela ao dar ênfase a um Cinema mais universal, de temática urbana e contemporânea.

    Contemporâneo, aliás, é a palavra que melhor o define. O filme aborda questões que possuem um quê das esquisitices filosófico-existenciais do homem de Kafka e Bukowski. É uma pulp fiction como as do escritor Raymond Chandler que o protagonista gostava de ler. Apesar dele não se situar em uma época e local definidos, fica claro que as relações mostradas são extremamente atuais, pois giram em torno do consumo excessivo. Deseja-se tudo e consome-se tudo na tentativa de preencher um vazio interior, mas ao mesmo tempo se é consumido pelo objeto de desejo. O cheiro do ralo é o resto desse processo, é o lixo. E como diz Lourenço em determinado momento: “o lixo é o troco”.

Ficha Técnica

Diretor: Heitor Dhalia

Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Silvia Lourenço, Flavio Bauraqui, Alice Braga, Leonardo Medeiros, Lourenço Mutarelli…

Gênero: Tragicômico

Produção: Brasil

Duração: 112 min

Publicado originalmente em 01 de abril de 2007.

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